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A falsa narrativa dos ‘paneleiros arrependidos’. Ou: Ninguém se arrependeu por ter tirado Dilma do poder

por Roger Scar

Juliana Dal Piva, jornalista da Época e também da Agência Lupa, publicou um artigo hoje no qual traz a falsa narrativa dos “paneleiros arrependidos”, a ideia de que aqueles que bateram panelas e pediram o impeachment de Dilma agora estão desolados pela escolha que fizeram. Ela diz. em seu texto, exatamente o seguinte:

Surgem agora, em meio aos problemas de abastecimento provocados pela paralisação dos caminhoneiros, os primeiros “paneleiros” arrependidos de terem protestado pela queda de Dilma e colaborado para a ascensão de Temer.

Logo em seguida ela cita um caso, o caso de um suposto servidor público que se enquadra perfeitamente em sua narrativa. Aliás, neste trecho, há uma mistura de poesia com o exagero comum em uma mentira muito desconectada da realidade. Vale a pena conferir o que ela nos diz:

O servidor público Mário Rodrigues Magalhães, de 33 anos, mirava o nada durante o início da tarde da terça-feira 29 de maio. Sentado em um dos bancos do Largo da Carioca, entre a praça do metrô e o caminho que leva ao edifício do BNDES, no centro do Rio de Janeiro, vestia camisa social listrada, calça social e sapatos de couro, ambos pretos. Com os braços cruzados, ele se disse angustiado desde o fim da semana. “Esse clima de pânico geral, não tem como não se abalar.”

Não parece provável que Mário estivesse mesmo “mirando o nada”, desolado na praça, e tenha simplesmente dito isso. Conforme mostrou minha recente entrevista ao jornalista Diego Toledo, do UOL, é mais do que corriqueiro que os entrevistadores editem suas matérias mostrando apenas a parte que lhes interessa. Não seria diferente neste caso, é óbvio.

De qualquer forma a narrativa não se sustenta nos fatos.

Há, sim, um número significativo de pessoas que não querem Temer no poder. É fato, também, que seu governo é impopular e que a crise institucional iniciada no governo Dilma não parece estar perto do fim. E não está. Só que nenhum destes fatos serve para mostrar que haja, de algum modo, o dito arrependimento. Quem realmente disse, até agora, se arrepender de ter tirado Dilma do poder e querer colocá-la de volta? Só o Mário, que afirma categoricamente na matéria, isso segundo Dal Piva.

Será que este é o sentimento comum?

Vamos presumir que a índole da jornalista e de seu entrevistado seja algo inquestionável, e assim assumiremos aqui que o que foi publicado é verdadeiro e que é assim mesmo que Mário se sente. Presumido isso, como exatamente eu poderia saber se esta sensação é a mesma para todo o resto? Será que todos aqueles que bateram panelas contra a Dilma concordam com Mário? Será que eles também acham que tirar Dilma foi um erro e que ela deveria ter ficado?

Improvável.

A realidade é que apesar da atual insatisfação com o governo, as pessoas também não estavam satisfeitas com Dilma. Se não fosse este o caso talvez ela até tivesse ficado no poder. Além disso, é verdade também e todos sabem que Temer e Dilma são peças de um mesmo problema. Não é mero acaso que ele tenha sido vice dela, também não é acaso que ambos tenham sido eleitos exatamente pelas mesmas pessoas. Quem votou em Dilma votou também em Temer. Quem apoiou o projeto de poder petista apoiou, ainda que indiretamente, o projeto de poder do PMDB.

Se há hoje quem esteja insatisfeito com o atual governo, é duvidoso pensar que estas mesmas pessoas acreditem no retorno de Dilma ou em sua permanência como solução. Na realidade isso chega até a ser inacreditável.

Porém, verdade seja dita, Dal Piva não foi a primeira e nem será a última a forçar a barra com esse discurso. A narrativa mentirosa dos “paneleiros arrependidos” já vem sendo difundida há meses e continuará sendo difundida ainda por um bom tempo. A jornalista da Época, que também é da Agência Lupa e “investiga” notícias dos sites alheios, certamente deixou o seu viés ideológico tomar conta. Eu não a culpo, isso faz parte da essência humana. Seria apenas mais conveniente que ela nos esclarecesse exatamente que viés é esse.

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